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quinta-feira, 9 de março de 2017

A INTRUSA Crônicas do Xadrez cap. - VII

A INTRUSA
Crônicas do Xadrez cap. - VII


por Roberto Telles de Souza
Toda semana postamos aqui as famosas crônicas sobre xadrez do nosso grande amigo e entusiasta de nosso esporte o Árbitro Internacional Roberto Telles de Souza



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Por Roberto Telles de Souza

A INTRUSA
Na cidade de Batatais, há alguns anos, disputava-se um forte torneio paulista, com a presença de vários mestres, quando ocorreu um fato inusitado.

Numa das primeiras mesas, na quarta rodada de um suíço em seis, um mestre refletia muito sobre o seu lance, pois ali experimentava o clímax da partida, uma vez que a posição exigia uma opção por planos diametralmente distintos: simplificava a posição e empatava ou caminharia por uma sequência imponderável quanto as possibilidades táticas, mas que, a princípio, parecia intuitivamente vantajosa. O empate era uma renúncia antecipada ao título, pois já havia empatado na partida anterior. O lance era torre de b1 em b5, abandonando a defesa da ala e partindo para um vigoroso ataque.

Angustiava-se, pois sabia que, na vida e no xadrez, seja qual for a decisão sempre haverá um custo diferenciado. O tempo passava e os enxadristas menos experientes murmuravam: “- Deve estar perdido”. Não reuniam condições técnicas para avaliar a complexidade da situação. Indiferente aos capivaras, o mestre tentava calcular as possibilidades no oceano exponencial das probabilidades. O adversário, tranquilo, passeava pelo salão apreciando outras partidas. Parecia seguro, raramente olhava para a sua mesa, apenas aguardando o lance do mestre, pois se sentia em condições de igualdade posicional e um empate sereia de bom tamanho.

Em dado momento, um dos participantes procura o árbitro e diz aflito: “– Veja, aquela mulher está de fogo e invadiu o salão!”. Rapidamente os árbitros tentam impedir alguma atitude inconveniente daquela intrusa. Ela parecia ser uma mendiga, um dos tantos excluídos de nossas preocupações, descalça, suja, com as roupas rasgadas, cabelos ensebados e revoltos, bem idosa ou maltratada pelas constantes injustiças sociais deste país. Além de tudo, estava visivelmente bêbada.

Não deu tempo. Aproximou-se da mesa do nosso mestre e, sem mesmo observar bem o tabuleiro, disse bem alto: “– Ah, é xadrez? Moço, jogue esta pedra, indicando a torre, lá na frente, que você vai ganhar!”.

Aquilo foi uma intervenção dos deuses? Ou fora a demoníaca presença de algum espírito zombeteiro? Os defensores da Teoria do Caos diriam que foi apenas mais um evento, mas que certamente teria um efeito multiplicador na dinâmica do Universo. Nunca ninguém soube a verdade, mas o que conta é que o nosso mestre ficou tão perturbado com aquilo, que optou pela simplificação e o inexorável empate. Não jogou a torre por uma questão de ética, pois isso está muito além do que possa supor a nossa vã filosofia.

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Autoria: Roberto Telles de Souza (Árbitro Internacional)

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O Xadrez é algo mais do que um jogo; é uma diversão intelectual que
tem um pouco de Arte e muito de Ciência. É, além disso, um meio de
aproximação social e intelectual. (GM J. R.Capablanca, ex-campeão
Mundial)