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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

SÓCIOS DO BARULHO
Crônicas do Xadrez cap. - XI

por Roberto Telles de Souza
Toda semana postamos aqui as famosas crônicas sobre xadrez do nosso grande amigo e entusiasta de nosso esporte o Árbitro Internacional Roberto Telles de Souza


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 Confederação Brasileira de Xadrez, Licença: 5700568643 ID nº.77
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Por Roberto Telles de Souza


SÓCIOS DO BARULHO
Na maioria das vezes, a sala de eventos para a realização de campeonatos de xadrez é inadequada, pois a modalidade nem sempre tem o respeito que merece. Quadras de ginásios esportivos, salas sem ventilação, locais barulhentos, enfim são os espaços destinados aos tolerantes e conformados praticantes do esporte da inteligência.

Nos Jogos Regionais de São Paulo, realizados em Lençóis Paulista, a situação não foi diferente. A competição foi feita em um salão social do clube local, porém a frequência dos associados não foi controlada. Isso criou uma situação inaceitável para o desenrolar do evento, pois os sócios do clube invadiam a área de jogo, davam palpites nas partidas em andamento, jogavam o tempo todo, num espaço separado por biombos, “pebolim”, futebol de mesa em que os futebolistas de plástico ou de madeira são movidos por eixos e manoplas, causando um barulho infernal, pois festejavam exageradamente cada “GOOOLLL!!!!!!”, evidenciando que aquilo era proposital.




A irritação era geral por parte dos enxadristas. O árbitro principal e seus dois auxiliares revezavam-se na tentativa de solicitar aos “simpáticos” associados do clube que contivessem a euforia e, se possível, que não jogassem a partir do momento em que as partidas de xadrez começassem. A situação era controlada por um breve período de tempo, pois repentinamente a selvageria dos gritos inundava o salão. Houve um momento tão insuportável que o árbitro principal disse a um de seus auxiliares:


“– Vai lá e acabe com o jogo de “pebolim”, mesmo que tenhamos problemas com os diretores do clube. Se necessário, pode me chamar que eu irei até lá!!“



Depois de algum tempo, o árbitro auxiliar voltou, sem que o infernal barulho terminasse. Continuava ensurdecedor. Com alguma insegurança, explicou o motivo por seu insucesso em não conseguir interromper aquela ópera hardcore. Disse, com certa ansiedade:

“– Não são os sócios do clube que estão promovendo essa algazarra... O senhor pode não acreditar, mas quem está lá sozinho, fazendo esse barulho todo, é o outro árbitro auxiliar..." (Fato real)


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Autoria: Roberto Telles de Souza (Árbitro Internacional)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

UM ENXADRISTA NO DIVÃ
Crônicas do Xadrez cap. - XXVI

por Roberto Telles de Souza
Toda semana postamos aqui as famosas crônicas sobre xadrez do nosso grande amigo e entusiasta de nosso esporte o Árbitro Internacional Roberto Telles de Souza


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Por Roberto Telles de Souza

UM ENXADRISTA NO DIVÃ
Sabe doutor, algumas vezes me questiono se não é uma imbecilidade eu pagar por estas intermináveis sessões, que por sinal não são baratas, sem que eu sinta qualquer tipo de progresso nestas análises. 


Psicoterapia, não é mesmo?! Nome bonito, né?! No mínimo dá status. É bem verdade que nunca antes havia me desabafado com ninguém na intensidade com a qual me abro neste consultório. Mas eu sinto que falta alguma coisa. Você..., o senhor, fica aí parado, como uma estátua, um pinguim de geladeira, sei lá, e eu falando, falando... De vez em quando, faço uma pausa só pra saber se você ainda está aí. Pura perda de tempo. Não vejo nenhuma reação sua. Talvez o senhor esteja distante, apenas pensando como vai pagar suas contas com o meu rico dinheirinho. 

Mas, não importa. Deve ser realmente uma chatice essa sua profissão, em que só se fica ouvindo as neuroses e baboseiras dos outros. Se fosse eu, cobraria bem mais. Nem sei como o senhor aguenta. Isto aqui até parece um enjoativo desfile de escolas de samba de cidades do interior, uma ala pior que outra e numa interminável sequência. Haja saco, desculpe-me, paciência. 

Outro dia fiquei pensando: quem eu sou realmente? Ah, antes de falar nisso, há alguns dias lembrei-me do senhor. O senhor já ouviu falar num brilhante jogador de xadrez que se submeteu a uma longa sessão de análises. Não é que o cara virou psicanalista e o psicanalista dele virou jogador de xadrez. Como dizem os americanos: “role playing”, troca de papéis. Coisa maluca essa, né? Jogador de xadrez é mesmo pirado, digo, neurótico. 

Tem outro, Pillsbury, esse era louco mesmo, um gênio, mas louco. Será que todo gênio é louco? O senhor acredita que ele era capaz de jogar às cegas com mais de uma dezena de adversários, ao mesmo tempo, enquanto jogava whist, um jogo de baralho. Ele chegou a ser internado num sanatório, coitado. 

Falam que um enxadrista morreu afogado, porque tentou engolir uma peça de xadrez, parece que era uma torre, por ter perdido uma partida. 

Acho que tem muita mentira nessas histórias. Mas, no fundo, fico irado, revoltado quando dizem que jogador de xadrez é louco. Eu amo o xadrez, de paixão. O prazer que ele me propicia chega a ser orgástico. Acho que exagerei. Não, não há nenhum exagero nisso. Talvez haja, mas a verdade é que uma partida bem elaborada, desde a abertura, como se fossem as preliminares, até o êxtase da vitória provoca-me uma sensação de puro gozo. 

O senhor não pode imaginar o quanto é delirante essa experiência. É bem provável que os viciados em drogas me entendam. Eu nunca usei, mas acredito que deva ser semelhante. É verdade, doutor, sou careta, desculpe-me, eu só quero dizer que nem mesmo bebo, isto é, raramente. 

Ficou meio confuso, mas acho que o senhor entendeu... Ouvi dizer que as mulheres não gostam tanto de xadrez, porque elas se recusam a matar o pai. Isso é um assunto para o senhor, pelo pouco que eu sei, né? Mas, do que é que eu estava falando mesmo? Ah, tanto faz... Acho que era sobre mulher e xadrez. 

Minha mãe sempre me incentivou a jogar, mas as namoradas que tive odiavam o jogo, pois achavam que eu gostava mais do xadrez que delas. Eu sempre brigava, negava, dizia que era apenas um hobby, mas não conseguia convencê-las. Ficava puto, digo, muito revoltado. De alguma forma, elas sempre sabiam que eu estava mentindo. 

O problema de ser um apaixonado pelo xadrez é que ele é feminino também, sabe quando a gente está mentindo. E, na paixão, o ciúme é doentio, né? Medo de perder o domínio, essa talvez seja a essência do ciúme. E não fica nisso: na paixão há a necessidade de contínuas provas de total afeto, mas as derrotas evidenciam a nossa pequenez, a cruel ruptura com o pseudodomínio imaginado anteriormente... 


Acho que o senhor não está entendendo nada, isso é apenas para os brilhantes e narcisistas jogadores de xadrez, coisa que sou por uns períodos curtos, porque no geral sou um combalido guerreiro, derrotado pelas minhas expectativas irreais, pela minha incapacidade de administrar minhas escolhas. Chega! Já sei, o tempo está esgotado. Não sei se virei às próximas partidas, digo, sessões.

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Autoria: Roberto Telles de Souza (Árbitro Internacional)


UM INEXPUGNÁVEL CORCEL
Crônicas do Xadrez cap. - XIV

por Roberto Telles de Souza
Toda semana postamos aqui as famosas crônicas sobre xadrez do nosso grande amigo e entusiasta de nosso esporte o Árbitro Internacional Roberto Telles de Souza


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Por Roberto Telles de Souza


UM INEXPUGNÁVEL CORCEL
Em um torneio realizado em Recife, os tabuleiros foram dispostos em grandes tábuas, sustentados por cavaletes, de tal forma que um tabuleiro ficava sempre bem próximo de outro. Para se ausentar dali, era difícil, pois o espaço diminuto impedia uma boa mobilidade dos jogadores. Quando alguém ia ao sanitário, vários também deixavam seus tabuleiros para aproveitar o espaço que se formava. 


Um forte enxadrista pernambucano, em dado momento, fez o lance e saiu em direção à lanchonete, torcendo para que seu opositor “rocasse pequeno”, pois daria o tempo adequado para que, após uma criativa manobra tática, pudesse instalar posteriormente um inexpugnável corcel em “d5”, que se iniciaria por um sutil “f4”.

Ao retornar, sua idéia fixa se concretizou. Embora seu adversário também tivesse ausente do tabuleiro, na planilha e no tabuleiro havia a confirmação de que o lance era o esperado. Lembrou-se de que não havia pagado o refrigerante consumido e novamente saiu dali. Quando voltou, percebeu que o seu “tempo” estava em andamento e, em dúvida fez seu lance, o prazeroso “f4”, e o anotou corretamente. A partida estava se desenvolvendo com tranquilidade, se não fosse por uma interminável discussão na mesa vizinha. Embora aquilo atrapalhasse um pouco, concentrou-se adequadamente em sua partida, pois seu conquistado domínio deveria ser transformado em vitória, era apenas uma questão técnica e ele sabia disso. 

Na mesa anexa, os ânimos se exaltaram (lugar-comum obrigatório). Acusações mútuas de desonestidade, ameaças mais fortes, tudo conturbando a partida do nosso pernambucano, que pensou em chamar o árbitro para acabar com aquela “palhaçada”. Nem precisou, o diretor do torneio aproximou-se e solicitou que os exaltados competidores o acompanhassem para discutir o impasse em um local mais apropriado. Finalmente a essencial harmonia de que o nosso enxadrista necessitava para encontrar o plano adequado para arrematar a partida. Mas, havia perdido a concentração e, por pouco, não inverteu uma rigorosa sequência de lances. Instalou, finalmente, seu alazão no fértil pasto de “d5” e dali, tal qual um seguro maestro, regeu a marcha da vitória. Superou os problemas e refletiu sobre a necessidade de paz no ambiente dos jogos. Terminada a partida, perguntou o motivo daquela intolerável discussão entre seus vizinhos de mesa, ao que um dos participantes disse: 

“– Parece que um deles jogou um “f4” perdedor, mas está uma confusão danada e ninguém sabe o porquê! Um acusa o outro de ter feito o lance!”. O árbitro também está perdido e não sabe em quem acreditar”.


Nosso enxadrista nem podia pensar em se envolver naquela questão, pois estava muito feliz por sua vitória. (Fato real)
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Autoria: Roberto Telles de Souza (Árbitro Internacional)

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

UM PSIQUIATRA NÃO ESTRANHO NO NINHO
Crônicas do Xadrez cap. - VIII

por Roberto Telles de Souza
Toda semana postamos aqui as famosas crônicas sobre xadrez do nosso grande amigo e entusiasta de nosso esporte o Árbitro Internacional Roberto Telles de Souza


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Por Roberto Telles de Souza


UM PSIQUIATRA NÃO ESTRANHO NO NINHO
As referências a algumas inesquecíveis figuras folclóricas do xadrez.

Entre as "figuraças", o Dr. Jorge Lemos, a quem tive a honra de conhecer, ignorou todos os limites para alguém que conseguiu se impor como individualidade no meio enxadrístico.

Por volta de 1980, no Circuito das Águas, organizado pela Academia Capablanca de Xadrez, na Cidade mineira de São Lourenço, esse médico, que diziam ser psiquiatra, deu vários shows de bom humor, criatividade e individualidade. 

Nas partidas em que arrematava com brilhantes sacrifícios, ficava em pé sobre a cadeira e passava a gritar, com a sonoridade de um tenor possuído, frases do tipo: “– Só Deuuussssssss!!!! Só Deuuussssssss!!!!”, ou então “– Sou um gêniiiiiooooooo!!!“. 

Era exagerado em suas manifestações, emoção e adrenalina puras. Além disso passava boa parte das madrugadas jogando partidas apostadas contra GMs como o filipino Eugênio Torre, o argentino Quinteros, entre outros. Perdeu muito dinheiro, mas divertiu-se sem se importar com as opiniões dos demais enxadristas.


Numa das noites perdeu até o relógio de xadrez, além de um belíssimo jogo de peças. Nada importava a esse enxadrista a não ser o direito de experimentar e extrapolar a sua paixão pelo xadrez.


10/02/1965 Festa da Federação Metropolitana de Xadrez

Há uma frase que diz: “Ser livre é poder ser eu mesmo”. Seguramente o incrível Dr. Jorge Lemos soube sempre ser ele mesmo, pois conhecia o sutil limite entre sanidade e loucura. Era a própria superação.

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Autoria: Roberto Telles de Souza (Árbitro Internacional)

O INÍCIO DE UMA CRÔNICA ANUNCIADA


Crônicas do Xadrez cap. - IX
por Roberto Telles de Souza

Toda semana postamos aqui as famosas crônicas sobre xadrez do nosso grande amigo e entusiasta de nosso esporte o Árbitro Internacional Roberto Telles de Souza


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Por Roberto Telles de Souza


O INÍCIO DE UMA CRÔNICA ANUNCIADA
No final da década de 1970, houve a realização de três ou quatro glamourosos torneios de xadrez, os Internacional Torneio Aberto de Uberlândia, Copa Itaú, evento que marcou época no Triângulo Mineiro.

Antecedendo a uma das competições, houve até mesmo uma simultânea do Mequinho, em que importantes figuras políticas da época participaram. O torneio foi um sucesso, com exceção de um conflito localizado e pontual entre uma eficiente enxadrista, detentora de importantes títulos nacionais, e um tradicional e polêmico jogador do Clube de Xadrez São Paulo.

Tudo transcorria nos “conformes”, quando uma saraivada de trocas de insultos inundou o salão. “– Você não presta, sua # 3#@&++**!!!!”. A resposta foi à altura das teclas do teclado, isto sem querer ser redundante. “– Você que é um **++$@#3#, seu escroto!!!”. A “baixaria” tomou conta do salão e o clima psicológico ficou insustentável. Ao se levantarem quando a temperatura subiu vertiginosamente, cadeiras caíram e também a mesa onde jogavam caiu, arremessando, por todo canto, cavalos e peões. O efeito dominó fez com que outras mesas despejassem suas peças sobre o chão. Parecia uma festa de “pião”, um rodeio no melhor estilo amador.

“– Chamem o juiz!!”.

O árbitro aproximou-se dos litigantes (este vocábulo foi usado apenas para recuperar parte do nível e significa: pessoas que estão em litígio, conflito) e questionou sobre o porquê daquela desinteligência (tudo pelo nível que o xadrez merece). Embora os dois berrassem simultaneamente foi possível entender que ambos haviam combinado um empate, antes da partida se iniciar e que um deles traiu o combinado. O que deveria ser apenas uma simulação de jogo transformou-se em jogo quando ele se aproveitou da displicência dela e ganhou, isto segundo a versão dela. Segundo ele, o que ficou acertado era que eles empatariam, apenas no caso da posição ficar em equilíbrio, na versão pouco convincente dele.




O árbitro puniu a ambos com derrota, porque o vocabulário utilizado pelos alterados jogadores desrespeitavam à norma culta, além do que os palavrões empregados na discussão extrapolaram àqueles que já eram de domínio público. A vigorosa polêmica continuou ainda por um tempo significativo, com inovações semânticas no chamado vocabulário “chulo”. Somente com a diplomática ameaça de exclusão do evento de ambos, o sonoro e apaixonado embate.
O fim de uma crônica anunciada
Na semana seguinte à competição de Uberlândia, houve um outro torneio aberto na cidade de Batatais, realizado nas dependências de uma tradicional escola claretiana, com a presença de inúmeros enxadristas que também participaram do evento de Minas Gerais. A cidade estava oficialmente incentivando o xadrez, pois formara uma equipe infanto-juvenil promissora com alguns jovens jogadores, entre os quais Milos, Tsuboi, Terzian e Rezendinho, se não me falha a memória.

A imprensa local prestigiou, a comunidade se fez presente, enfim aquilo era um momento de orgulho para a população da olinthiana Batatais. O Prefeito Municipal sentou-se à mesa de arbitragem e passou a acompanhar as rodadas. Sistematicamente comentava sobre o significado do evento para a cidade, destacando um ou outro aspecto positivo do xadrez como um forte instrumento educacional para crianças e adolescentes. Por volta da terceira ou quarta rodada, o Prefeito, em diálogo com um dos árbitros, disse com certa empolgação:

- Olhe que coisa maravilhosa que é o xadrez! O nome de Batatais está sendo veiculado por grandes jornais como ‘O Estadão’ e a ‘Folha de São Paulo’, tudo porque o xadrez é um esporte muito especial. Fiz tanto pelo Município e ninguém reconheceu, mas com um torneio de xadrez, a história mudou. Não é à toa que dizem que essa é a nobre arte, o esporte dos verdadeiros cavalheiros. No futebol, a gente não vê isso, esse silêncio, essa concentração, esse espírito de companheirismo. Responda-me, nunca ocorre nenhuma “briguinha” entre jogadores de xadrez?

Antes mesmo da resposta do árbitro, uma onda de selvageria explodiu no salão do evento. Cadeiras caindo, peças voando, saraivadas de insultos, tudo a partir de um único epicentro conflitual. A jogadora abaladíssima e com os nervos à flor da pele atirou violentamente o relógio sobre seu opositor e este em represália virou a mesa sobre o pé dela, causando-lhe ferimentos. Os litigantes eram os mesmíssimos da tragédia de Uberlândia. Quis o destino que viessem a se enfrentar, porém o ódio entre eles não havia diminuído. A razão do destempero dela: ele, em uma posição totalmente perdida, com peças a menos, com a ameaça de um mate inevitável após deixar seu tempo correr por uns vinte minutos, com a maior “cara-de-pau” disse: 
- Aceita empate?


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Autoria: Roberto Telles de Souza (Árbitro Internacional)

O PLANO B


Crônicas do Xadrez cap. - II
por Roberto Telles de Souza

Desde o dia 25 de novembro de 2016 eu publico, toda semana as famosas crônicas sobre xadrez do nosso grande amigo e entusiasta do xadrez o Árbitro Internacional Roberto Telles de Souza


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Autoria: Roberto Telles de Souza (Árbitro Internacional)

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CRÔNICAS DE XADREZ 

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Autoria: Roberto Telles de Souza (Árbitro Internacional)
O PLANO B


Dois habilidosos enxadristas organizaram um torneio aberto numa cidade paulista, com uma razoável premiação em dinheiro para o campeão e o vice. Embora o valor reservado à premiação das demais classificações não fosse tão alto, eles esperavam cobrir as despesas com as mais de 180 a 200 inscrições previstas e até mesmo obter um "lucrosinho", pois os dois jogadores viviam numa situação econômica precária, precaríssima. 


Acontece que tudo deu errado. Choveu, havia outros torneios amadores com melhor premiação e na mesma data, enfim os astros parecem ter conspirado para o insucesso do evento. Se não bastassem essas adversidades, inscreveram-se um GM e dois MIs, além de uns três mestres FIDE e vários jogadores com rating FIDE, entre os 22 inscritos no torneio. Quatro dos participantes eram crianças principiantes. 


Os organizadores, na época, também tinham rating FIDE, mas sem titulação importante. 


Número total de participantes: 22. É isso mesmo, apenas 22. O prejuízo era certo. Pior do que o prejuízo financeiro seria o moral. Como explicar que não havia recursos para premiar os melhores. A situação só não se agravou mais, porque não teriam qualquer custos com o aluguel do salão, com 100 mesas preparadas para o torneio, pois combinaram com o dono do bar do clube, que teriam uma pequena porcentagem sobre o lucro das vendas de lanches, salgadinhos e refrigerantes.


A tragédia já não era anunciada, era estabelecida. Cancelar o evento era impensável. A vergonha já imperava na mente dos dois. Não só a vergonha, uma dívida impagável se anunciava. Um dos organizadores olhou para o outro e disse: " - Agora só resta o Plano B!"


Cada partida era um sofrimento total. Uma qualidade e dois peões a mais não eram nada tranquilizantes, mesmo quando se jogava contra o menino que foi o quarto melhor no torneio de sua escola. Milagrosamente, ao final das seis, tensas e suadas, rodadas previstas, o êxito total do “Plano B”: um dos organizadores em primeiro lugar e o outro em segundo!


Jogaram como dois leões, ainda que tivessem vivido na alma o medo apavorante das ovelhas,  pelas seis, seis intermináveis rodadas.


Venceram, mereceram. Com o dinheiro das inscrições foi possível premiar os demais classificados. Eles mesmos nada receberam, a não ser envelopes vazios, entregues pelo menino, quarto lugar de sua escola, mas último nesse evento. Nossos heróis apenas experimentarem o gostinho de parecer bons administradores de recursos e cumpridores responsáveis de seus deveres, além, é claro, de serem reconhecidos como excelentes enxadristas, pois jogaram, Deus sabe o quanto, sob intensa pressão psicológica e financeira.


Parece que o único prejudicado foi o proprietário do bar do clube, onde foi realizado o evento, pois além de não arrecadado quase nada com as vendas, também contabilizou um prejuízo de dois refrigerantes... e um salgadinho.



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Autoria: Roberto Telles de Souza (Árbitro Internacional)

O peão envenenado do Grob

O Ataque Grob vitorioso

Dundy - EUA vs Instrutor Willian - BRA

Jogue com o Fritz

O Xadrez é algo mais do que um jogo; é uma diversão intelectual que
tem um pouco de Arte e muito de Ciência. É, além disso, um meio de
aproximação social e intelectual. (GM J. R.Capablanca, ex-campeão
Mundial)